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Curso na Maternidade Moura Tapajóz discute formação do ‘adulto agressor’ e responsabilidade da sociedade

A Maternidade Dr. Moura Tapajóz (MMT), da Prefeitura de Manaus, promoveu nesta sexta-feira, 12/4, curso sobre o tema “Masculinidades”, que discutiu a extensão da participação e a responsabilidade da sociedade na construção do adulto agressor. A capacitação, iniciativa do Serviço de Atendimento à Vítima de Violência Sexual (Savvis), contou com a participação dos antropólogos Raquel Wiggers e Natã Souza Lima e da psicóloga Lígia Maria Duque.

 

 

“A pessoa não se torna agressora de uma hora para outra. É algo que vem sendo construído, muitas vezes, desde a infância e avaliar a participação da sociedade nesse processo é muito importante”, explanou a coordenadora do Savvis na MMT, médica Zélia Campos, para profissionais das áreas de Saúde e Educação do Estado e município.

 

Segundo a professora doutora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Raquel Wiggers, existem ferramentas teórico-conceituais para orientar as ações práticas do cotidiano profissional de combate à violência. “Nossa sociedade cria os homens de forma a valorizar a capacidade de ser violento, como acontece com o estímulo a brincadeiras de lutas, de guerra e de tiro. O menino é ensinado a ser violento desde pequeno e isso traz repercussões para uma sociedade que recorre à violência para resolver seus conflitos”, explicou a antropóloga.

 

A psicóloga Lígia Duque, que trabalhou durante oito anos com grupos reflexivos de autores de agressão, disse que comprovou mudanças de comportamento nos autores e presenciou vários resgates, a ponto de haver casos de homens que, mesmo sem a família denunciar, foram espontaneamente à delegacia se acusar, após terem chegado à conclusão de que deveriam responder pelo que fizeram.

 

“O agressor, até pelo que aprendeu do que é ser homem, entende que pode agredir. Quando você inicia o tratamento do agressor, é estranho, porque ele próprio não acha errado o que faz e defende que pode fazer. Temos que trabalhar com uma crença muito enraizada e o nosso desafio na psicologia é fazê-lo perceber que precisa mudar”, esclareceu Duque.

 

O antropólogo Natã Lima destacou o problema em torno da vinculação entre homens e violência, além de ter refutado a associação entre violência, homens e pobreza ou raça, e ainda a ideia de pulsão biológica do homem à violência. “Sem anular as posições de vítima ou agressor, precisamos ampliar nossa análise e enfatizar o aspecto relacional dos conflitos”, explicou.

 

“A prevenção das agressões não é somente uma questão de segurança pública. Tem que começar desde cedo, pois comportamentos precisam ser mudados, ideias precisam ser desconstruídas, e essa mudança só pode acontecer por meio da informação”, concluiu Zélia Campos.

 

Texto: Marcella Normando/MMT/Semsa

Foto: Divulgação/MMT

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